domingo, setembro 16, 2007

Comunismo defendido à socos



Fernando Gabeira acertou um soco num senador. Melhor ainda: ele acertou um soco num senador petista. Melhor ainda: ele acertou um soco num dos senadores petistas que comandaram o banho de descarrego em Renan Calheiros, na última quarta-feira. Epa! Se é assim que funciona, eu também quero entrar na briga.

O banho de descarrego em Renan Calheiros deu certo. Ele saiu purificado do Congresso Nacional. E nem precisou pagar o dízimo. Nós é que pagaremos em seu lugar. O dízimo cobrado pelos bispos petistas tem um nome: CPMF. Que continuará sendo pago por crentes e descrentes, sacramentado por todos os partidos.

Em sua defesa, Renan Calheiros citou Antonio Gramsci, repetindo mais uma vez o argumento de que a imprensa – em particular VEJA – perseguiu-o a fim de desestabilizar Lula. Foi uma das piores semanas de todos os tempos para a intelectualidade de esquerda. Num dia, Osama bin Laden elogiou Noam Chomsky. No outro, Renan Calheiros recorreu a Gramsci. O que restava da esquerda acabou. Depois desses dois episódios, ela nunca mais conseguirá se reerguer.

Renan Calheiros intimidou os senadores prometendo denunciar seus pecados caso eles insistissem em cassá-lo. Nosso papel, a partir de agora, é descobrir os pecados de cada um deles. Descobrir e dedurar. Quanto maior e mais escandaloso o pecado, melhor. Mas defendo a necessidade de denunciar também os pequenos pecados. Nem que seja só para aborrecer. Estupidamente, acostumamo-nos a acreditar que, fora do horário de trabalho, um político tem o direito de se comportar como quiser. Renan Calheiros mostrou que isso é uma tolice, porque um segredo de alcova, por mais ínfimo que seja, sempre pode ser usado como instrumento de chantagem contra a democracia.

Um dos senadores achacados por Renan Calheiros foi Jefferson Péres, que empregou a mulher em seu gabinete. Se isso é verdade, Renan Calheiros está certo, Jefferson Péres está errado. Pena que suas denúncias tenham parado aí. Como reagiram os outros senadores durante seu discurso? O que eles fizeram? Aloizio Mercadante olhou para Patrícia Saboya? Ideli Salvatti pensou nas assessoras de Sibá Machado? Romero Jucá refletiu sobre o destino dos filhos fora do casamento? Edison Lobão foi flagrado por um telefonema de sua mulher?

Quem mais tinha a perder com a queda de Renan Calheiros nem era um senador, e sim Lula. Tanto que ele mobilizou o PT para salvá-lo. O acordo que une Lula a Renan Calheiros parece ser bem mais profundo e temerário do que aquele entre um senador e sua secretária. O acordo tem um aspecto público, ao alcance de todos. Basta analisar o organograma de uma Eletronorte. A dificuldade é tentar desmascarar o que acontece por trás do organograma.

Depois do julgamento no Supremo Tribunal Federal, eu disse que Lula seria lembrado como o presidente dos mensaleiros. Depois do julgamento no Senado, digo que seu legado será Renan Calheiros. Um evento como o de quarta-feira dá uma canseira danada. A gente acaba achando que nem adianta continuar a espernear. Adianta, sim. Adianta para desfazer um monte de crendices que ainda temos sobre o país. Adianta para consolidar a imagem de uma época. Renan Calheiros passa. Lula passa. A gente fica.


Por Diogo Mainardi (VEJA)

PT vai à China aprender com comunistas



Grupo quer verificar como o PC, com 72,4 milhões de filiados, organiza sua estrutura e a área de comunicação Vera Rosa Onze dirigentes do PT passarão dez dias na China, a convite do Partido Comunista daquele país. Liderada pelo presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), a comitiva embarcará na segunda-feira para Pequim, só retornando ao Brasil no dia 20. A menos de três meses das eleições diretas para renovar sua direção, o PT está interessado em verificar de perto como o PC chinês, com 72,4 milhões de filiados, organiza sua estrutura e a parte relativa à comunicação.Apesar da penúria financeira provocada pela dívida de R$ 48 milhões - rombo dos tempos em que a cúpula terceirizou as finanças do partido -, o PT pagará as passagens de seus dirigentes para Pequim. Os chineses, por sua vez, arcarão com as despesas de alimentação, hospedagem e transporte.“É um investimento político”, disse o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, ao justificar os gastos. “Não é um passeio, como aqueles que dirigentes do PSDB e do DEM fazem, para conhecer a Broadway, em Nova York”, provocou.Berzoini contou que a pauta da viagem é diversificada. “Temos interesse em discutir diversos assuntos, como a formação política de nossos dirigentes e até o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”, explicou.As missões petistas à China estão previstas no protocolo de cooperação assinado entre o PC chinês e o PT em 2004, na gestão do então presidente do partido, José Genoino, hoje deputado processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no rastro da crise do mensalão. Genoino deixou a presidência do partido em julho de 2005.O protocolo prevê o intercâmbio de informações, com visitas anuais de delegações dos dois partidos. “Estamos em débito, porque não fomos lá nem em 2005 nem em 2006, enquanto os chineses vieram todos os anos para cá. A chance é agora”, disse Pomar. Candidato à presidência do PT pela corrente Articulação de Esquerda, ele avalia que a ida à China tem “dimensão estratégica”.O roteiro começa em Pequim, passa por Xangai e inclui várias outras cidades, para que os convidados conheçam de perto o comunismo pragmático. “Qualquer política externa séria tem de levar em consideração o papel dos chineses”, disse o secretário de Relações Internacionais do PT. “Além disso, temos todo o interesse em saber como o PC chinês organiza sua estrutura e a comunicação com seus militantes.” JOVENSNa preparação para a viagem, uma curiosidade chamou a atenção dos petistas: enquanto o PT, com cerca de 1 milhão de filiados, enfrenta o envelhecimento de seus militantes, o PC chinês consegue se manter jovem.Do ano passado até hoje aumentaram tanto a proporção de filiados com menos de 35 anos como o ingresso de mulheres no partido. Dados do Departamento de Organização do Comitê Central indicam que os pedidos de filiação ao PC da China superaram 19 milhões em 2006 - um crescimento de 6,8% em relação ao ano anterior.
Fonte: O Estadão